Você tira dinheiro da empresa ou recebe um salário dela?
Toda semana, uma conversa prática sobre gestão, finanças e crescimento, para quem toca um negócio no mundo real.
Existe uma frase que eu escuto quase toda semana quando começo a acompanhar uma empresa: eu tiro dinheiro quando preciso.
Parece natural. A empresa é sua, o dinheiro é seu, então por que não pegar quando surge uma necessidade? O problema é que esse hábito, tão comum, é uma das principais razões pelas quais o empresário nunca sabe se o negócio realmente se sustenta.
Quando você retira valores sem regra, dois bolsos se misturam: o da empresa e o seu. E quando eles se misturam, fica impossível saber onde termina a conta da empresa e onde começa a sua vida pessoal.
A solução tem nome: pró-labore.
Pró-labore é o salário do dono. É um valor fixo, definido com antecedência, que você retira todo mês pelo trabalho que faz na empresa. Nem mais quando o caixa está cheio, nem menos quando está apertado. Um valor combinado, como o de qualquer funcionário.
Pode parecer só uma formalidade, mas essa simples decisão organiza duas vidas ao mesmo tempo.
Na sua vida pessoal, você passa a saber com quanto pode contar todo mês. Sua casa deixa de depender do humor do caixa da empresa. Você planeja suas contas pessoais com um número real, e não com retiradas imprevisíveis.
Na vida da empresa, acontece algo ainda mais importante: o negócio passa a mostrar a verdade. Quando o seu trabalho tem um custo fixo registrado, você descobre se a empresa se paga sozinha ou se ela só fecha as contas porque você trabalha de graça sem perceber.
E é aqui que mora a parte que quase ninguém enxerga.
Muita empresa parece lucrativa só porque o dono não se paga. Ele coloca horas, esforço e dedicação, mas não lança isso como custo. No papel, sobra dinheiro. Na prática, se ele contratasse alguém para fazer o que faz, o negócio ficaria no vermelho. Isso não é lucro, é um prejuízo disfarçado de esforço pessoal.
Definir o pró-labore tira essa máscara. Você passa a enxergar a empresa como ela é de verdade, e não como ela parece quando o seu trabalho é invisível.
Como começar? De um jeito simples:
Primeiro, defina um valor realista para o seu trabalho. Pergunte-se quanto custaria contratar alguém para fazer o que você faz. Esse é um bom ponto de partida.
Segundo, trate esse valor como qualquer outra conta da empresa. Ele entra na lista de despesas do mês, com a mesma seriedade do aluguel e do salário dos funcionários.
Terceiro, resista à tentação de pegar mais quando o caixa parecer folgado. Aquele dinheiro extra quase nunca é sobra, é obrigação que ainda não venceu.
Ter um pró-labore não é engessar sua vida. É o contrário. É a diferença entre viver na incerteza do quanto vai sobrar e ter um chão firme para pisar todo mês, sabendo que a empresa e a sua casa têm cada uma o seu lugar.
Empresa saudável paga o dono.
E dono que se paga enxerga, pela primeira vez, se a empresa realmente fecha as contas sozinha.
PERGUNTA DA SEMANA
Se você tivesse que contratar outra pessoa para fazer tudo o que você faz na empresa, ela pagaria esse salário sem entrar no vermelho? Pense nisso até a próxima coluna.
Nylcemara Brandão é consultora em gestão financeira e estratégia empresarial.
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